segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Texto sobre um encontro

Solidão é uma emoção deveras interessante para mim. Uma emoção que conheço tal qual conheço sobre o que sou. Mas assim como tudo em relação a mim, não sei que sentimento lhe atribuir. Falo de sentimento no sentido de valor. Não sei qual valor lhe atribuir. Como em todas as coisas da vida, a solidão para mim é impulso e repulsa. Assim como eu a quero, eu a temo. Talvez a queira por temê-la, ou então a tema por querê-la em demasia. E, como em todas as coisas da vida, quanto mais conhecemos algo, mais tranquilos nos sentimos com a sua presença. Sendo esta desejada, ou não. Esta tarde ensolarada foi um reencontro com a solidão, mesmo que já estivesse a brotar da pele. Uma sensação estranha, que me ocorre às vezes, é sentir solidão justamente quando não estou só. Quanto maior e mais intensa a experiência de troca e relação com alguém, maior o sentimento de solidão. Alguns diriam que é sofrer por antecipação, visto que nenhuma relação pode ser perpetuada infinitamente. Eu diria que é sofrer pela separação. Instigantemente, a experiência desta tarde não causou tal sentimento. E isso me fez perceber que a solidão só permanece e cresce na medida em que a relação leva algo de si mesmo embora, sem deixar nada em troca. É um vazio, um desejo de resgatar o que lhe foi arrancado com permissão, mas que se percebeu tardiamente que nada ficou no lugar. Hoje parti repleta. Repleta de esperança, de aconchego, de – como iria um novo amigo – fluidos bons. E tudo isso, simplesmente por um abraço, que não era simples. No caminho de volta, que mais se assemelhava com o primeiro instante de uma nova viagem, o som da gaita de boca entoada pela garota da bicicleta alugada fez mais sentido. Assim como a criança - que sorria com um futuro incerto e, exatamente por isso, esplendoroso – passou a requerer um olhar diferenciado. E mais, a atenção que antes os passos apressados em buscar a cura da amargura não permitiriam. O que nos faz bem? Quem encontrar a resposta não precisará mais fechar a porta com receio de que lhe bata o perigo do mal-estar. Ninguém entra sem ser convidado, ou pelo menos sem que lhe apresentem uma negativa. Quando nos calamos, damos ao outro o direito da decisão. E esta autorização será a nossa própria decisão. Hoje eu permiti que decidissem por mim. Foi a decisão mais acertada do dia. Sorte? Percepção? Sentimento? Emoção? Empatia? Tudo isso e apenas um se deixar levar por alguém que instigou, o que é para mim, uma das mais fortes emoções: o viver a vida. Amo pessoas. Adoro os tropeços e esbarrões que a vida nos permite promover. Amo pessoas. Seus medos, inseguranças e todas as formas que inventam para suportar suas solidões. Um conhecer infinito de personalidades, vontades, desejos. Um mergulhar intenso em sombras e luzes de almas que anseiam por um resgate. Uma única promessa de salvação. Amo pessoas numa forma de amor meio doentio. A cada impulso de mergulhar em seus medos, a mesma repulsa de também poder senti-lo em demasia. Amar pessoas desperta certo (mas delicioso) pavor.

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